Crônicas e contos

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domingo, 25 de julho de 2010

Humanizaram-me

Fazia 18 horas que estava trabalhando, os mecanismos dos meus braços rangiam pelo movimento constante que fazia com eles, chegando até a irritar. Podia dizer que aquilo era dor, mas como todos sabem, máquina não sente dor, ou funciona ou está estragada. Eu sentia também uma pressão forte no peito causada pelo exercício constante, devia ser pela bateria central estar acabando e o corpo exigir certa força para carregar as caixas.
Mais seis horas seriam o suficiente e eu poderia ir para o centro de comando recarregar a bateria. Quando pensava só em sentir a energia fluindo pelo meu corpo inteiro, já ficava inquieto imaginando que aquilo poderia ser como o descanso que os seres humanos fazem para repor as energias.
Logo após, já reflito que eu posso descansar como as pessoas e assim, consequentemente, sonhar. Mas, diante de toda essa reflexão, sei que como máquina, apenas recarrego as energias pelo plug da tomada que se encaixa em mim e que não posso sonhar nesse momento e nem em outro. É um intervalo de tempo muito rápido. Em apenas 20 minutos já estou carregado, dificilmente alguém consegue sonhar tão rapidamente.
Mas mesmo assim, não me para de vir à cabeça a idéia de que o momento de recarregar só pode ser sonho. Pois quando relembro do momento de repor as energias, penso no fluxo de vitalidade que pode se espalhar pelo meu corpo inteiro e assim em conjunto imagens e pensamentos repentinos se formam em minha cabeça. São de todo o tipo, alguns têm o meu semelhante a andar de bicicleta; outros têm eu a correr, conversar e rir junto com os outros de minha espécie.
Mas, quando relembro dos supostos sonhos concluo que são, mesmo, apenas sonhos e inalcançáveis, pois para o ser humano uma máquina não ri e nem conversa com outra e, consequentemente, não pode se sentir feliz por isso.
Entretanto, isso é extremamente possível, pois criaram a minha espécie de robô para conseguir interpretar qualquer expressão e comando humano, mesmo que seja uma metáfora ou eufemismo. Assim eu sou capaz de interpretar uma piada e avaliar se é engraçada ou não, também sou capaz de manter um diálogo com outro robô porque possuímos a mesma língua.
Dessa forma, meu ser foi criado com a tecnologia Freud, a mais eficiente para qualquer tipo de trabalho seja mecânico ou intelectual.
Contudo, sei que há cotas para robôs, seja de qualquer espécie, para trabalhos que envolvam a capacidade mental, pois um exercício que lida com a subjetividade da máquina pode dar uma autonomia a ela que pode ser indesejável para a sociedade, como está previsto no código 2053 Art1: Toda máquina está restrita a se envolver, respectivamente, nas áreas Humanas, Biológicas e Exatas; sendo necessário haver uma preliminar ou uma aprovação do governo para que a máquina e/ou robô, de determinados modelos, estejam autorizados a lidar com alguma área das citadas anteriormente. Assim, como declarado na Constituição, na lei 2052 Art 2, todo o trabalho braçal ou de esforço físico está destinado, primeiramente, as máquinas e robôs.
Assim meu nome é Freud, e o sobrenome 3550, que representa meu código de fabricação na região que vivo. Acabo de finalizar minhas tarefas e completar às 24h horas de trabalho por dia. Estou a me dirigir ao centro de comando para recarregar a bateria, mas começo a desrespeitar a programação. Toda a minha reflexão no momento de trabalho, deixou-me decidido a lutar pela minha espécie, se não o fizer agora, amanhã estarei novamente a trabalhar constantemente e pensar o mesmo de agora pouco.
Saio à rua, vou caminhando decidido e percebo a estranheza de olhares, mas ignoro e continuo a andar. Avisto uma das praças mais conhecidas no mundo todo, a “Átomo”, que foi construída para celebrar a tecnologia e a sua eficiência nos anos de grande prosperidade e evolução da humanidade.
Subo as escadas e grito, não com uma expressão robótica e sim humana “Eu tenho um sonho” e começo a discursar e a falar o que penso e como acho que gostaria e deveria ser o mundo. Até que ouço um tiro, foi bem no meio do meu peito, bem no meio da minha bateria. Caio, mas não consigo fechar os olhos, pois não tenho pálpebras. Assim percebo que estou pifando, alias que pifei há muito tempo.

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