Crônicas e contos

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domingo, 25 de julho de 2010

Cego

Não posso chegar atrasado, ando pela calçada com pressa, driblo as pessoas que passam por mim, atravesso a rua até chegar ao ponto de ônibus. Depois de esperar três minutos, tenho que lidar com a inquietação de não ver passar nenhum transporte, então resolvo sentar em uma cadeira vaga para esperar a hora de finalmente partir.
Minutos depois, vejo uma capa de violão ser deixada ao lado de onde estou sentado, ouço um som de cordas a serem afinadas, olho pra baixo e vejo uma criança de três anos de idade a procurar espaço para se acomodar na capa preta do violão.
Quando percebo, uma mulher fala rispidamente para o garoto tomar cuidado para não se sentar no chão, dando ordem para o menino se acomodar apenas no pequeno espaço da capa do violão. Estranho o cuidado da provável mãe do garoto, pois ele está literalmente sujo, a pele da criança está totalmente encoberta por uma camada de sujeira. Vejo a criança colocando a mão na boca, ao retirar o dedo de lá, percebo que ela fez uma mancha de sujeira ao encostar o dedo ao redor dos lábios.
Nesse instante, vejo outro menino da mesma idade do outro a correr para pegar um lugar vago para aqueles que esperam o ônibus. Ele tem a mesma aparência do garoto da capa do violão, corpo e cabelos sujos.
Passeio o meu olhar novamente pela mãe das duas crianças e reforço o que pensei no momento em que coloquei meus olhos na moça, como era bela. Ela tinha os cabelos mais escuros que já vi, sua boca era bonita com uma simetria perfeita semelhante a dos dentes, tinha uma feição e até um jeito que me fizeram pensar em Iracema do livro de José de Alencar.
Quando fui observar o possível corpo da indígena constatei que havia uma criança presa ao colo dela por um utensílio próprio para isso. A saia que a jovem usava também dificultava uma melhor análise de como era seu corpo, mas mesmo assim não deixava de parecer bela.
Logo em seguida, uma música começou a ser cantada por uma voz masculina com um tom suave, era o companheiro da índia a manejar delicadamente o violão. O homem era negro com um cabelo cheio de rastafari, usava uma blusa verde com uma calça marrom de moletom.
Estava prestando atenção na música até que de repente vejo a índia mexer o corpo em um movimento automático. Quando ouço ela cantar o refrão da música com o rapaz reparo em uma sintonia que fez os olhares dos mais cínicos se virarem em direção ao casal.
Durante a música dos dois, percebi que a moça segurava uma toca, imaginei que ela esperava alguém contribuir com a família de 5 pessoas. Depois de ouvir o refrão por duas vezes e me impressionar com o talento do negro e da índia, começo a procurar moedas no meu bolso, em um movimento apressado me atrapalho para achar pelo menos algum trocado.
Concentro-me na procura de dinheiro até que passa um ônibus verde, era o meu, tirei as mãos do bolso e sai correndo em direção ao veículo. Deparei-me com o motorista a sorrir e a olhar o dueto pela brecha da porta.
Sento-me no assento e começo a pensar: como será que aquele casal se conheceu?Será que a moça era mesmo uma índia? Qual o motivo que eles têm para ficar perambulando pela Paulista a procura de dinheiro?Na minha cabeça surgiram mais dúvidas, mas sabia que elas não seriam respondidas.
Em seguida, percebo que um senhor entrou no ônibus e já me preparo para ceder meu assento para ele. Nesse instante penso no garoto que se sentou ao meu lado em cima da capa do violão, lembro-me que ele estava exausto e mesmo assim naquela observação rápida, mas minuciosa que fiz do menino como de sua família não me fez nem sequer ceder o meu lugar para a criança. Depois ao olhar pela janela percebi que minha visão estava embasada e que precisava consultar algum especialista para resolver meu problema.

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